quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Who will only fly for freedom?

O dia é 13 de abril de 2011 e estamos no meio de um show do U2 no estádio do Morumbi, São Paulo. 360ºTour. Uma das maiores bandas do planeta viaja suas melodias e letras entre protestos de paz e pedidos de amor, alguns declarados, outros sutis, em frente a uma multidão em êxtase. Indescritível.
Coreografias, cenários, textos, imagens, fazem você sentir e realmente acreditar na possibilidade de um mundo e pessoas melhores, mais unidas e justas.
Numa das suas músicas – Walk On – a banda faz referência à ativista de Myanmar Aung San Suu Kyi, a terceira dos filhos de Aung San, herói do país e um dos líderes na proclamação de sua independência, assassinado em 1948.
Ausente de Myanmar (na época chamada Birmânia), retorna em 1988 para cuidar da mãe. Durante a eleição geral de 1990, a LND, partido liderado por Suu Kyi, obteve 59% dos votos em todo o país, conquistando 81% dos assentos no parlamento - o que deveria fazer dela a primeira-ministra da Birmânia. No entanto, pouco antes das eleições, ela foi detida e colocada em prisão domiciliar, condição em que viveu por quase 15 anos.
Alguns meses antes deste show, Suu Kyi foi libertada pela Anistia Internacional. Em 1° de abrilde 2012, foi eleitadeputada pela Liga Nacional pela Democracia.
A música havia sido escrita 10 anos antes.
 
WALK ON
And love is not the easy thing
The only baggage that you can bring...
And love is not the easy thing....
The only baggage you can bring
Is all that you can't leave behind

And if the darkness is to keep us apart
And if the daylight feels like it's a long way off
And if your glass heart should crack
And for a second you turn back
Oh no, be strong

Walk on, walk on
What you got they can't steal it
No they can't even feel it
Walk on, walk on...
Stay safe tonight

You're packing a suitcase for a place none of us has been
A place that has to be believed to be seen
You could have flown away
A singing bird in an open cage
Who will only fly, only fly for freedom

Walk on, walk on
What you've got they can't deny it
Can't sell it, or buy it
Walk on, walk on
Stay safe tonight

And I know it aches
And your heart it breaks
And you can only take so much
Walk on, walk on

Home... hard to know what it is if you've never had one
Home... I can't say where it is but I know I'm going home
That's where the hurt is

And I know it aches
And your heart it breaks
And you can only take so much
Walk on, walk on

Leave it behind
You've got to leave it behind

All that you fashion
All that you make
All that you build
All that you break
All that you measure
All that you feel
All this you can leave behind

Maurício Simões ouve U2 desde 83.



terça-feira, 13 de novembro de 2012

Lance Armstrong e os heróis

Quando a casa caiu para o ciclista Lance Armstrong, meu mundinho também caiu. Ele era bom demais para ser verdade. Um atleta carismático que supera uma doença terrível para conquistar um dos títulos mais difíceis do esporte, o Tour de France. Mas não era só isso, ele foi lá e fez de novo e de novo e de novo, numa sequência nunca antes vista. Depois se aposentou desse esporte, abriu uma ONG de enorme sucesso e foi mostrar seu talento primeiro na maratona e depois no triatlo. E depois ainda voltou em grande estilo ao Tour. E fez tudo isso cercado de adversários pegos no antidoping enquanto ele passava incólume por centenas de testes. Ele era o nosso super-herói! Mas como todo super-herói tem seu ponto fraco, um herói de carne e osso tem o caráter humano, tão falivelmente humano.

Quem não quer ser herói? Um dos livros mais incríveis que li é o “Impensável” de Amanda Ripley. Nele, ela disseca o que é ser um herói. Fala da idade (jovem), do gênero (homem), solteiro (menos laço) e sem ele tem filhos (não). O herói vive em cidade pequena, tem mais laços com os “seus” protegidos. Essa é a regra. Mas o mais importante, amamos os heróis. Se eles não existem como no cinema e nos gibis, vamos atrás dos que estão aqui na Terra e são como nós.

O esporte nos oferece heróis às dezenas. Quem não quer “salvar” seu país num Mundial? Defender o pênalti na Copa? Depositamos nos heróis atléticos aquilo que muitos tentaram e não conseguiram. Mas aí vem a decepção... e o que fazer quando você oferece tanto (mas tanto!) e ele te trai?? Justo ele que estampa pôsteres na parede? E aquela pulseirinha que você usava orgulhoso porque ajudava pessoas doentes?

Um dos filmes mais fantásticos sobre super-herói é o Dark Knight (Batman). Já no finalzinho se ouve uma fala que diz que a cidade precisa de um herói de verdade, sem máscaras. Mas o que é um herói se não alguém também cheio de defeitos?

Mas até onde toleramos esses defeitos? O que fazer? Aceitar as mentiras dele? Inventar argumentos mentirosos com você mesmo para continuar do lado dele? Não, não dá. Muitos estão fazendo isso, mas eu não consigo. Prefiro aceitar que errei feio acreditando nele. Não foi qualquer mentira que Lance cometeu. Ele mentiu quando foi questionado sob juramento. Ele nos fez acreditar que ele era tudo aquilo que prometia, justo o que fazia dele tão especial. Ele nos traiu de uma forma como nunca tinha sido feito antes, não com toda essa intensidade.

Se até outro dia Lance liderava um gigantesco pelotão de fãs que o seguiam sem pensar, hoje ele nos fez lembrar que alguns heróis humanos são fantasias como contos de fadas. Muito triste.

 
 
 
 
Danilo Balu
 
 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

DUMBARIBORÓ, La Pachamama segue sonriendo,ou melhor , haciendo sorrir…

Uma foto, mesmo longe de ser um primor da arte de retratar uma paisagem, permite-nos algumas considerações.
Há um texto do Monteiro Lobato que fala no sorriso geológico, de quem vê, olha e compreende. Pretendo através de uma foto deste lugar mágico, uma paisagem de estarrecer qualquer ser humano dotado de visão, mostrar como quase sempre o ser dotado de algum interesse geológico permanece apaixonado pela Pachamama (como o povo andino chama a mãe Terra).

Partamos do ponto focal desta foto…


 

… uma ilhota, rodeada por quilômetros de sal, ilha Incahuasi, Salar de Uyuni, em  meio  à planície do sal, das mais planas que se vê por ai; um altinho topográfico ressalta nesse depósito atual de sal, resquício de um mar que ficou aprisionado entre (e dentre) o surgimento (surgimento, seria o equivalente a crescimento em altura, para o analfabeto geológico, ou soerguimento no geologuês básico) da cadeia de montanhas, a cordilheira, Andina.
Basicamente é um retão do caramba para qualquer lado que se ande (60.000 km2 segundo o guía), uma superfície de no máximo 10m de sal duro, cristalizado, sobre uma grande profundidade de uma solução de água e muitos sais dissolvidos.
Usemos agora o aparato cerebral humano, associado à seu sistema de captação visual (vulgo, olho), aditivado de algum saber geológico. Debaixo de algum cacto cujo crescimento dura centenas à milhares de anos, umas camadas de calcários, que nada mais são do que corais (como esses que se desenvolvem em mares tropicais hoje  em dia) que cresceram sobre fragmentos de rochas vulcânicas. Ou seja, invertendo a descrição acima, havia um mar, depois na sua borda surgiram vulcões, desses vulcões rolaram muitos fragmentos de rocha para dentro desse mar, formando um alto topográfico, nesse alto , num momento em que o mar estava alguns metros acima do nível atual de sal, formaram-se corais. Com a continuidade da formação dos Andes o mar foi secando, o nível da água diminuindo e o salar se depositando (salar, no geologuês é chamado de evaporito, por ser resultado da evaporação de um corpo de água).
Dessa forma, uma simples mirada sobre um paisagem (uma não, duas ou três, pois utilizaremos um recurso muito comum à visão geológica, o zoom) pode nos transportar a diferentes estágios evolutivos dessa linda historia da Pachamama, que vive num tempo muito distinto daquele que nos habituamos a ver passar…



 
 
Manuel Correa, da região de Atacama, voltando do salar de Uyuni, lugar onde qualquer um se encanta com a Pachamama e sua geología…04.11.2012
 
 


 
 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Livros (de papel, claro)

Tento sempre fugir das reclamações de que "na minha época isso era melhor" ou "no futuro isso vai piorar muito". Por mais que as tentações sejam grandes, sei que muito dessas percepções, por vezes disfarçadas de reflexões profundas e sábias, é fruto de vieses da mente humana, quase tão inevitáveis e irracionais quanto afastar a mão bruscamente quando se encosta em algo quente. A memória é sempre caprichosa, fantasia o passado e é míope para o presente.
Mesmo assim, ainda não consegui parar de me lamentar com o possível fim (ou pelo menos brutal queda na importância) do livro impresso. Já tinha passado pelo choque de ver que todos os meus CDs, acumulados ao longo de anos e a um custo não pequeno, passaram a caber num disco rígido do tamanho da minha mão e poderiam ter sido quase todos adquiridos a custo zero. Quando a Amazon apareceu com o Kindle, torci para que entrasse para a categoria de micos tecnológicos, produtos que não encontram público, como o videolaser. Qual o que, como diria o poeta. Em poucos anos a venda de livros eletrônicos superou a de livros físicos, e agora olho em desespero para os metros de prateleiras repletas de livros que tenho, pensando que eles não terão valor nenhum para os meus descendentes. Muito provavelmente eles não vão entender a vantagem de guardar aquele monte de papel quando se pode ter, ao alcance dos dedos, o mesmo conteúdo. Em defesa do livro de papel, há quem diga que o processo de leitura e retenção de conhecimento é muito superior neste. Cria-se uma relação com o livro que não existe com o arquivo eletrônico; um livro é muito mais do que seu conteúdo: é a edição, a capa, o momento em que foi lido, para onde ele foi carregado, quantas manchas de café as páginas guardam. Tudo isso provavelmente será ignorado, em nome de uma "praticidade" que é marca do tempo - dane-se a "experiência", o livro eletrônico é mais barato e mais fácil de ser carregado e consultado, ponto.
Crio alguma esperança em dias como hoje, um domingo, quando entro numa livraria espetacular e vejo que está cheia, com fila nos caixas, pilhas de lançamentos, gente conversando, descobrindo novos títulos, expondo-se a pequenos acasos. Quem sabe neste caso a marcha da dita eficiência encontre nos leitores um grupo de "irredutíveis gauleses", dispostos a ignorar um pouco a tecnologia em nome do prazer de ler, rabiscar, emprestar e guardar um livro impresso.


Luciano Sobral, trabalha como economista para financiar a humilde missão de conhecer o mundo.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

De tolerância, justiça e diferenças.

Vivemos em um mundo melhor, mas cada vez mais aborrecido. Sou otimista com o mundo, pessimista com a humanidade. A Democracia e a igualdade de direitos parecem ser conquistas que uma grande parcela (maioria?) já aceitou serem a melhor alternativa disponível na atualidade, mas batemos cabeça quando o assunto é saber conviver com as diferenças.
Com a liberdade, estamos ainda aprendendo a poder viver com nossas escolhas. A vida, aliás, é o resultado de uma série de escolhas que fazemos dia a dia. Escolhas essas que têm muito menos peso no resultado final do que imaginamos, mas não deixam de ser opções nossa. Mas cada um começa a corrida de um ponto diferente, usando equipamentos diferentes. E essa é a beleza do negócio, mesmo que pareça ruim para muitos.
Essa semana assisti a um curta de ficção belíssimo, o “2081”. Nele, a humanidade decidiu por igualar tudo. Os fortes usam pesos para ficarem mais fracos, as belas usam máscaras. O governo decidiu por tornar o mundo mais “justo” à sua maneira. A diferença incomodou, como incomoda.
Essa nossa tara pela igualdade e por justiça nos faz atropelar as diferenças naturais. Não basta mais ser bom, ser honesto. Você tem que comprar alimentos orgânicos, defender os oprimidos e ser a favor que em todo grupo da sociedade seja um espelho exato e fiel da média populacional em raça, sexo e credo. Mas é possível? Não, não é.
Enfim, o mundo fica chato não quando alguns fazem barulho distorcendo ao seu gosto o que seria a “justiça ideal”. Ele é chato quando um cargo do ministério de um país nórdico vai para uma mulher jovem e muçulmana, diferente de todo um passado histórico, e isso não é só mais tido como bonito por ser uma nova realidade, mas é tido como um fim. Custe ele o que custar. Inclusive matando as diferenças na base da força e da lei.

A arte da tolerância é talvez o que mais teremos que praticar em um mundo tão policiador.

 
Trailer do filme 2081:
 
 
Danilo Balu   

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Dumbariboró e o olhar pra baixo...


“...olhei para baixo para ver uma coisa que eu nunca mais veria na vida...”
                                                                                                                      Philippe Petit




No conforto do lar, pleno domingão, vendo um filme brilhante, genial, desafiador, inspirador...Man On Wire...sobre o célebre equilibrista francês Philippe Petit, que chocou o status quo norte-americano ao vagar sobre um cabo de aço entre as torres do WTC, fui transplantado, pela minha engenhosa máquina cerebral, aos rincões do Marrocos. Foi um dia em que olhei para baixo e vi coisas que nunca mais verei na vida, e que não imaginava ver.
Numa road trip saí de Marakesh, cruzei o Atlas, esplendido com seus pessegueiros em flor, na descida dos palmeirais do Vale do Draa, entre ruínas inacreditáveis, decidi desviar o roteiro pré-estabelecido que visava à borda do imenso deserto do Saara.
 
Peguei um afluente do Draa que vinha da sua margem esquerda, rumo à minúscula Nekob, havia ouvido rumores de belíssimas gravuras rupestres. Na chegada a Nekob, por ser um dos feriados sagrados do Grande Profeta, não arrumei um único guia. Solução: ligar o GPS (só para não se perder), e partir com o carro pelas estradinhas, mais ou menos na direção que me indicaram. Algumas horas vagando e tentando comunicação via mimica com alguns simpáticos nativos (com certeza foi uma cena peculiar, analfabetos na língua local tentando com mimicas perguntar sobre a existência de gravuras rupestres), avistei, num leito seco de rio uma bela laje de “basaltos” (não sei precisar ao certo sua composição mineralógica, mas trata-se de um rocha máfica, escura, um antigo derrame vulcânico). Saí correndo feito criança e quando chego na laje olho pra baixo e ...
                        talvez um proto catálogo de pilates           
                      sem dúvida um quadrúpide                                          
                                       um afresco bem ornado                                                                      
                 um afresco bem ornado        
                                                                                                                                                
     sem dúvida texturas de imiscibilidade  líquida  , quando o  liquido de uma composição se“desmistura “ do outro                                                              
                                   
                            seriam “estratificações” em derrames máficos (algo bastante raro na geologia)
 


Seja andando sobre um fio, seja um reles caminhar, simplesmente vagar e olhar para baixo podem ser bons alentos em momentos de crise.

 

Manuel Corrêa, ao pé da Serra do Curral, outubro 2012

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Ponto de vista


Quem já participou de alguma dinâmica de grupo, destas que temos aos montes principalmente para processos seletivos de empregos?

Posso estar enganado, mas a impressão que tenho é que nessas dinâmicas o que importa é impor seu ponto de vista, mais até do que ter um que seja correto, maduro e honesto. Você precisa mostrar pra todos que é capaz de convencer alguém, seja seu futuro chefe ou subordinado, mas eles precisam saber que você acredita em algo, mesmo sem você acreditar.

Muitas vezes na vida a gente se depara com momentos que tudo que vale é exatamente esta atitude de mostrar que você tem razão, embora muitas vezes, senão em todas elas, a razão seja circunstancial. Mas a gente defende esta necessidade de ter a última palavra, este ponto final, este não sei o que de racional insano, seja nos gritos do trânsito, seja na apresentação da escola, na cor da parede da fachada ou no prato escolhido no restaurante. E se, por acaso, desta vez não foi você quem definiu a escolha, nada como torcer para que o caminho escolhido dê errado, pra lhe fazer sentir o gosto do “eu estava certo” mais uma vez.

Nos horários políticos isto nunca esteve tão em moda. Se fulano do outro partido acha isso, eu só posso criticá-lo, afinal é a minha maneira melhor de conseguir seu voto. A ideia minha é a boa, mesmo não sendo boa, nem ideia. A minha história é melhor, o meu ponto de vista é a sua salvação.

As eleições estão aí e acredite, todos os políticos sabem bastante sobre o que você quer e precisa. Infelizmente, nos dias de hoje o convencimento não tem passado muito perto do correto, honesto e comunitário.

O ponto de vista deles não tem sido o meu. Mas neste caso, não sou eu quem dá a última palavra.

Maurício Simões vota há mais de 25 anos.