quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Uma dose de otimismo para o ano novo

Amigos dizem que ando muito pessimista. Deve ser verdade. Aqui compartilho uma tentativa de imaginar um mundo melhor neste ano que começa:

- Paulinho da Viola lança, depois de 17 anos, um disco novo só com músicas inéditas. Fazendo jus ao tempo de gestação, é um dos melhores trabalhos da sua carreira, quinze sambas impecáveis, que não fariam feio em quaisquer dos seus grandes discos dos anos 70 e, ao mesmo tempo, trazem as angústias e alegrias da nossa época vistas por um sábio setentão. O comitê organizador das Olimpíadas do Rio tem um surto de sanidade e convida-o para ser a principal atração da festa de abertura. Wim Wenders resolve filmar o samba do Rio, como Paulinho, sem pressa alguma - monta uma equipe brasileira, aluga uma casa no Cosme Velho e passa a ser conhecido por “Alemão” pelos comerciantes do bairro.

- Richard Linklater lança Before Midnight, a conclusão da história de Jesse e Celine. Para alívio de todos que prenderam o ar desde que o projeto foi anunciado, o filme é tão bom quanto Before Sunset - em tempos de cinema em quatro dimensões, uma amostra de que bom mesmo são grandes atores seguindo um roteiro inteligente. Ah, descobriremos que bateu uma crise de consciência e Jesse não perdeu aquele avião que sairia de Paris. Imbecil.

- Começa a ganhar destaque, no time do Paysandu, Robertinho, 17 anos, meia-atacante, canhoto, 1,70m. Faz 23 gols na série B. Não comemora nenhum com dancinha, e um deles, contra o Palmeiras, driblando quatro oponentes, chapelando o goleiro e enchendo a rede ganha o prêmio Puskas. Felipão ainda não o convocou para a seleção, diz que é cedo e confia nas recuperações de Ronaldinho e Kaká.


- Um bilionário brasileiro resolve deixar “apenas” 10 milhões de reais para cada um dos três filhos e monta uma fundação com seu nome, que tem como meta construir um centro de pesquisas e hospitais em todas as regiões do Brasil. Consegue atrair um Nobel de medicina para coordenar o projeto e inaugura uma nova era da filantropia no país.

- Dilma resolve atacar os cartéis brasileiros e fazer uma reforma tributária que privilegie o investimento. O preço do vergalhão de aço cai 30%; é negociado um corte nos preços de automóveis de 20%. Ao mesmo tempo, aumenta o imposto sobre a gasolina, com a arrecadação destinada a um fundo especial de investimento em transporte coletivo.

A esperança é humilde e essencialmente irracional. Há uma insuperável contradição entre a racionalidade e o otimismo. Uma contradição vital, da qual dependemos e não podemos prescindir. Quando pretendemos superar essa contradição, explicar o otimismo pela razão, traímos a razão. Quando a esperança se torna arrogante, traímos a esperança.
André Lara Resende 
 
Luciano Sobral, trabalha como economista para financiar a humilde missão de conhecer o mundo.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

“Here... goes... something... I guess!”

Todo fim é um recomeço, já dizia o poeta. E todo fim de ano é a mesma coisa: listas e listas. Listas de melhores daquilo, de piores naquilo e as inevitáveis resoluções de Ano Novo. Eu não sei se as resoluções têm um mínimo efeito que seja. Você se programa para ser uma pessoa melhor, perder peso, praticar mais esporte, aprender um novo idioma e um monte de outras coisas. Todo material sério produzido no tema diz que mudanças exigem muita disciplina e certo planejamento. Disciplina, coragem e planejamento. Temos tudo isso? Melhor ainda: queremos DE VERDADE isso?

Uma dessas listas na Slate me levou a um vídeo incrível. Nele, uma garotinha no alto de seus 6 anos tem que descer uma longa rampa de esqui pela primeira vez. O vídeo não é longo (veja abaixo), usa uma daquelas câmeras on-board (Go Pro) e é muito tocante. Ela parece ser uma esquiadora talentosa, mas se vê de frente com um desafio daqueles e cheia de dúvidas e muito insegura (Do you go faster on the end run?).

Em sua preparação, você ouve a respiração ofegante, sua conversa com ela mesma (I’ll do it.), seu movimento de cabeça, a repetição de um mantra (I can do it!... I got it!), ela reduz o desafio para se encorajar (I’ll be fine... t’s just longer.)... enfim, uma garotinha de 6 anos em 1m50 nos ensinando o que deve ser feito.

No excelente Being Wrong, a escritora Kathryn Schulz faz uma observação interessante: descontada todas as vantagens de aprendizado que as crianças têm em relação a um adulto no que diz respeito a novas habilidades, caso fôssemos colocados em um ambiente completamente diferente do nosso, elas se adaptariam muito melhor entre outras coisas porque elas têm menos medo e menos vergonha de errar.

Enfim, quem sou eu para dar dicas a vocês? Meu curso de francês “aprenda você mesmo” continua encostado no quarto. Sou bom de recomendações, apesar de não conseguir seguir muito bem as minhas. Muito melhor que eu, é esta garotinha de (repito) apenas 6 anos. Como ela mesmo disse: "[It's] just the suspense at the top the first time that freaks you out. That's the only thing."

Se há uma lista que me fez parar e pensar de verdade em mudança de atitude, foi como ela encarou o medo de fazer algo tão radical. A ela sobrou coragem e não houve medo nem vergonha de errar. Junto com a disciplina, talvez seja um pouco mais disso que precisemos em 2013.

 
Danilo Balu 


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Novos Caminhos, Novas Escolhas.

Todos sabemos que a mudança de ano é apenas a continuidade do tempo.Com um mês após o outro, um dia após o outro, um segundo após o outro , não há na verdade uma grande mudança física.
Mas há sim, em muitos de nós, uma mudança psicológica  e simbólica considerável. É como num jogo de futebol - afinal aqui é o Brasil  - definido nos seus 90 minutos. Acaba um jogo, mas o campeonato continua. E é este meio que marca o fim de um jogo e o começo de outro, é neste intervalo que muitos de nós usamos para ver se o resultado está sendo o esperado, se o que estamos fazendo está surtindo efeito, ou se estamos mesmo fazendo o que combinamos, se vamos mudar nossas atitudes, se queremos mesmo mudar, e por aí vai.
Normalmente o fim do ano é a época em que as pessoas mais pensam em mudanças, já reparou? Apesar de a possibilidade de mudar esteja com todos nós a todos momento. Os nossos caminhos são feitos a cada passo em cada dia, em cada escolha. Precisamos nos dar conta do poder enorme  que temos de mudar as nossas vidas, de rever   nossos erros, de valorizar nossas conquistas, de aprender, perdoar, de sentir, de interferir.
Que bom que inventaram um fim para cada ano, porque dele brota o começo de outro. As esperanças se renovam, a fé se revigora, a respiração abranda, a mente alivia e se prepara para o caminho novo. Tudo isso de um caminho para outro
 
Mauricio Simões

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

2013


O que vai acontecer no mundo em 2013? Nem eu, nem a CIA, nem o Cacique Cobra Coral podem responder honestamente essa questão. Previsões econômicas e geopolíticas contam com um longo histórico de desmoralização, e o que parece mais sensato a esta altura é reconhecer a complexidade do ambiente em que vivemos e nossa relativa ignorância a respeito. Porém, para muitas perguntas, um “não sei” não é aceitável como resposta. A empresa precisa ouvir do seu diretor de vendas quanto ele acha que vai vender, para que seja feita uma estimativa de produção e de quantas pessoas são necessárias para que essa estimativa seja atendida. O pequeno comerciante precisa pensar que seu movimento justificará manter o estabelecimento aberto. A família precisa planejar pagamento de impostos, férias, filhos e demais gastos.

A solução para esses dilemas é relativamente simples: não devemos levar previsões a sério, de forma que não seremos seriamente afetados quando falharem. A previsão é válida enquanto for instrumental; quando a situação mudar, deve ser abandonada, com pouco apego e ressentimento. “Quando mudam os fatos, mudo minha opinião; o que você faz?”, disse, certa vez, o grande John Maynard Keynes. Claro que essa forma de humildade intelectual é mais fácil escrita e ditada do que na prática. Na vida real, nos apegamos às nossas visões de mundo, e se elas se confirmam por algum tempo, nos tornamos arrogantes e demasiadamente confiantes. O contrário, claro, também é danoso: sem confiança, perdemos a coragem de tomar até as decisões mais simples, abdicamos da vida.
Uma complicação é adicionada quando pensamos que boa parte dos melhores momentos de nossas vidas vêm de surpresas, quando nossas previsões são positivamente superadas num momento em que nada indicava que isso aconteceria e não tivemos tempo de ajustá-las. Aplicando a racionalidade e uma tendência de extrapolação, acabamos fugindo desses momentos: vamos embora cedo da festa que parece não ter gente interessante, vendemos as ações que estão dando prejuízo, rejeitamos uma proposta de sociedade aparentemente maluca. Talvez em nove entre dez casos a intuição funcione, e nada de bom realmente estivesse para acontecer; ocorre que a vida muda justamente quando as menores probabilidades se concretizam: a mulher ou o homem da sua vida também está naquela festa, tão entediada quanto você e desesperada por um bom papo; as ações começam uma recuperação acelerada dias após você se livrar delas; a empresa que o convidou deslancha em pouco tempo, enriquecendo os sócios.
Não tenho uma boa resposta para como lidar com essa “complicação”, tendo eu desperdiçado várias e grandes oportunidades na vida em nome do “mais seguro”. Talvez aí ajude o autoconhecimento, saber quando se pode confiar em sinais abstratos contra qualquer racionalidade (e aí vale, novamente, a ideia de não se apegar a previsões); talvez funcione escolher, de forma aleatória, o caminho que parece menos óbvio; talvez nada disso valha e sejamos, mesmo, prisioneiros do acaso. Desanimador por um lado, excitante por outro.
Que em 2013 sejamos racionais, impulsivos, flexíveis, humildes, desanimados, empolgados. Humanos, enfim.
Luciano Sobral, trabalha como economista para financiar a humilde missão de conhecer o mundo.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Boas Festas

Em um mundo cada vez menor e com tantas diferenças, saber tolerar e conviver com o diferente será uma virtude da qual estaremos cada vez mais dependentes. Por isso também que a reunião familiar de final de ano talvez seja um bom momento para treinar e exercer essa tolerância. Evite, então, confrontar aquele parente insuportável com aquelas verdades que estão entaladas há tempos e você não vê a hora de gritar enquanto segura o seu pescoço bem forte entre suas mãos. Ignore o priminho que sendo adolescente se converteu a algum modismo de estilo, procure não comentar quantos quilos 2012 acrescentou à sua tia. Ao menos não quando ela estiver por perto. Voe tem que celebrar o espírito natalino para que possa aturar sem violência o onipresente tio chato. Enfim, tolere por mais alguns dias tudo isso. Agora é o momento de sermos bons, nem que seja por uma mísera semana. Deixemos nossas imperfeições e fraquezas tão humanas para o 2013 que está por vir.

Tomo a liberdade de dizer em nome de todos do Blog Mundus que esperamos que tenha um excelente final de ano. Aproveite para refletir, rever parentes, praticar o bem com eles. Não faça ainda nada que eu não faria, não tente provar peru, chester, tender, paturi, churrasco e pernil tudo na mesma noite. Não acredite em milagres de como não arrematar quilos indesejáveis a esse corpinho maltratado, fique longe dessa invenção do demo chamada torrone, não cometa o sacrilégio de tirar as frutas secas do Panetone e, caso o considere uma heresia, me envie todo Chocotone que ganhar!

Eu também acho meio besta esse costume de nos fingirmos de pessoas boas da noite pro dia, mas acho que a coisa é mais embaixo, usando passagem de Carlos Drummond também acho que: “quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial (...), (ele) industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Pois aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente.”

Nesse espírito me despeço de você em 2012, torcendo para que tenhamos um pouco de paz e que recomecemos acreditando que em 2013 podemos, sim, ser melhores. Que apesar de toda nossa natural falibilidade humana, possamos sim, ser pessoas boas.

Boas festas!!


Danilo Balu

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

DUMBARIBORÓ, a pele da água

Hoje não vou lhes importunar com nenhum disparate, apenas pegarei carona no primeiro post deste agradável blog, e lhes brindarei com algumas belas superfícies, texturas, que a água (em suas diferentes soluções) faz ao encontrar a atmosfera...















 
Manuel Corrêa, 10.12.2012

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Confissões de um viciado em informação


E-mail. Twitter. Facebook. Google Reader. Passo por todos, depois repito. Esse ciclo é capaz de durar muitas horas, e não porque a torneira de informações novas foi fechada - há de se trabalhar e viver, e isso não está contido em redes sociais ou feeds de notícias e textos.
Não é difícil já achar diversas opiniões embasadas por estudos dizendo que a era de informação de alta frequência faz mal para a cognição: somos levados a valorizar a superficialidade, criar um viés que considera mais importante a informação mais recente, perdemos a perspectiva e a capacidade de concentração. Ainda sou uma pessoa que lê muitos livros, mas começo cinco ou seis antes de terminar um. Leio dez páginas, pulo para o outro, que trata de assunto completamente distinto do primeiro. Leria muito mais se não gastasse tanto tempo com o ciclo que descrevi acima.
Para quem, como eu, trabalha com o mercado financeiro, informação de alta frequência é ao mesmo tempo vital e enganosa. É preciso saber de preços em tempo real e tomar decisões com base nos movimentos deles; ao mesmo tempo, estamos sempre tentando enxergar algo primeiro mesmo onde não há nada a ser enxergado, ou tentando buscar explicações para movimentos irrelevantes. O euro caiu? Deve ser porque estão tacando fogo em carros na praça central de Atenas. Petróleo subiu? Tensão no Oriente Médio. E por aí vai, sem rigor, sem esforço, sem coragem para tentar argumentar que, muitas vezes, um charuto é só um charuto e o movimento de preços em um dia pode ser amplamente motivado pelo acaso.
Há o que fazer, claro. Equivalentes informáticos a adesivos de nicotina, softwares ajudam você a determinar horários para que o computador permita você desviar a atenção para a internet e e-mail. Sobretudo, é possível fazer uma conta simples e perceber quanta coisa você poderia fazer caso gastasse menos tempo olhando para uma tela. Não é fácil, claro, mas em algum momento passa a ser necessário para cultivar alguma sanidade. Pensem nisso, enquanto vou ver o que há de interessante no Twitter


Luciano Sobral, trabalha como economista para financiar a humilde missão de conhecer o mundo.